Miss Brasil, Representatividade e os Negros do Sul (por Mara Gomes)
“Existem negros no sul?” Essa é uma pergunta com a qual me deparo constantemente quando saio daqui. É como se não existíssemos, como se não fizéssemos parte da história dessa região do Brasil. Não é que os negros não existam; pelo contrário, o que existe é um grande esforço para tentar escondê-los e retirá-los da história, da mídia e de qualquer espaço de visibilidade. Essa é uma das grandes e engenhosas armas do racismo brasileiro, junto com a tão aclamada democracia racial.
Ao contrário do que a maioria acredita, existem muitos negros por aqui, e lá em 1986 Deise Nunes comprovou isso sendo coroada a Miss Brasil. Num país que tinha dado fim à escravidão havia apenas 98 anos, coroar uma mulher negra como Miss era um grande feito, tão grande que demorariam 30 anos para repeti-lo. Em 2016, com um recorde de 6 concorrentes negras na competição, outra mulher negra foi eleita como Miss Brasil: a paranaense Raissa Santana. Levou-se 30 anos para que o Brasil elegesse outra mulher negra para representar a beleza do país para o mundo, e isso é tão chocante que é preciso ser comemorado como uma vitória e uma questão de Representatividade, além de qualquer outra coisa.
Mesmo com todas as problemáticas que os concursos de beleza tragam (como a padronização do corpo feminino, por exemplo), é necessário ver essa vitória como algo simbólico na construção da auto-estima da mulher negra. É necessário que se celebre a vitória de Raissa para além de só mais um concurso de beleza. Durante a disputa da coroa, nas entrevistas que as concorrentes fazem para apresentar um pouco da sua história pessoal, Raissa Santana disse que sofria bullying no colégio, que não se achava bonita, que se sentia o “patinho feio” da turma. Quem imaginaria que uma Miss Brasil teria passado por isso? Mas sim, infelizmente quase toda a mulher negra já se sentiu do mesmo jeito.
É dito que o sul é a parte do Brasil onde existe a maior concentração de mulheres bonitas, e isso é glorificado justamente porque o racismo nos ensina a medir beleza através da cor da pele; e aqui, por causa da grande imigração italiana e alemã, as mulheres brancas ganham um maior destaque na história sulista. Mulheres negras existem no sul e em todo o Brasil, pessoas negras somam quase 50% da população brasileira, e enquanto o racismo insiste em nos esconder, pequenas Raissas estão se sentindo ainda estranhas, feias, exóticas, como a Miss um dia se sentiu: com a autoestima destruída. E é por isso que a representatividade importa, por isso que esse concurso vai além de uma mera competição. Nesse momento meninas negras estão olhando para Raissa e se enxergando nela. Isso não é só sobre a Raissa, não é só sobre o sul, é sobre todas as mulheres negras brasileiras. E, espero que um dia, essa rainha paraense de pele escura e sorriso leve, possa conquistar o mundo.
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Mara Gomes é estudante de Psicologia, militante feminista e autora da página A Mulher Negra e o Feminismo.
http://www.sul21.com.br/jornal/miss-brasil-representatividade-e-os-negros-do-sul-por-mara-gomes/

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